Nem todas as árvores morrem de pé

O livro conta duas histórias que caminham lado a lado: a de Emmi e Misha, vivida na antiga Alemanha de Leste, e a da filha de ambos, identificada apenas pela inicial M., como se o nome pouco importasse diante do peso da vida que lhe coube.
Emmi, vinda da Alemanha Ocidental, casa com Misha antes da construção do muro de Berlim. Só depois descobre que ele pertence à Stasi. Grávida, sente-se traída e perdida, e acaba por rejeitar a filha ainda antes de nascer, como se naquela criança estivesse a continuação do homem que deixou de amar — um homem duro, que parecia ter entregue o coração ao partido em vez de o dar às pessoas.
Tenho dificuldade em compreender este pai. Há nele uma rigidez que fere e uma frieza que assusta. E, no entanto, é ele quem acompanha a filha durante a infância e a juventude. À sua maneira, quer protegê-la e prepará-la para a vida. Exige muito, e a menina cresce com receio de o desiludir, procurando corresponder ao orgulho que ele deposita nela.
A mãe, pelo contrário, afasta-se de tudo. Fecha-se no quarto e deixa-se cair numa tristeza profunda, rejeitando o marido e a filha como se não tivesse forças para amar. A casa transforma-se num lugar de silêncios e ausências.
Mais tarde, já formada em Medicina, M. foge para Praga com um grupo de colegas. Procura libertar-se do regime e da vida que conheceu. É então que descobre que o pai, afinal, tem pés de barro. A imagem do herói quebra-se. O orgulho desmorona-se. O amor transforma-se numa dor difícil de explicar.
Talvez todos nós passemos por um momento assim. Nem sempre de forma tão dramática, mas chega o dia em que percebemos que os nossos pais não são heróis — são apenas pessoas, com fraquezas e limites. Quando temos maturidade, conseguimos compreender e aceitar. Quando não temos, podem nascer revoltas profundas e feridas que custam a sarar.
M. ficará para sempre marcada pelo regime em que cresceu, pelas atitudes do pai e pelo abandono da mãe. A infância não desaparece — acompanha-nos como uma sombra silenciosa.
Algumas frases do livro ficaram-me gravadas.
Uma delas diz que as plantas são como as pessoas: cada uma com a sua sensibilidade, umas mais frágeis, outras mais fortes; umas precisam de cuidados constantes, outras sobrevivem quase sozinhas. Fiquei a pensar nas minhas plantas e achei esta comparação cheia de verdade. Também as pessoas crescem de maneiras diferentes, e nem todas resistem às mesmas tempestades.
Outra frase tocou-me ainda mais profundamente: a família faz parte de nós tanto quanto nós fazemos parte dela, mas não devemos atribuir-lhe a culpa de uma vida mal vivida. A família é um ponto de partida, não uma sentença.
Estas palavras fizeram-me pensar muito. Trazemos connosco a marca daqueles que vieram antes de nós, mas a nossa vida não está escrita de antemão. Cada pessoa tem o seu caminho.
Também me impressionou a ideia de que a descendência não substitui a ascendência. Precisamos das duas. Somos feitos de raízes e de ramos, e sem raízes nenhuma árvore se sustenta.
Senti que este é um livro que nos faz crescer por dentro. Obriga-nos a pensar na família, nas feridas que carregamos e na maneira como conduzimos a nossa vida.
Nem todas as árvores morrem de pé. Algumas vergam com o peso das tempestades. Outras partem-se antes do tempo. Mas talvez a verdadeira força esteja não em parecer forte, mas em aprender a compreender.

Compreender os nossos pais.
Compreender os outros.
E, com o tempo, compreender-nos a nós próprios.

Talvez seja isso crescer: aceitar que as árvores humanas são frágeis — e mesmo assim continuam a viver dentro da nossa memória.

          Alice Valadas